Jazz é coisa de velho?

outro texto véio, feito a pedido do Tode para uma revista que ele ia fazer pra aula do luli. É, ia fazer. Mas eu gosto dele (do texto, e do Tode tb, apesar de tar sumido)

O Jazz, como estilo musical estabelecido, está perto de completar cem anos. E, há pelo menos 50, já teve sua morte decretada milhares de vezes. Desde a ascensão do Rock’n’Roll como principal estilo de música ‘jovem’, nos anos 50, o Jazz foi sendo cada vez mais relegado à condição de ‘música de velho’. O estereótipo do tiozinho grisalho tomando seu Scotch, fumando um charutão cubano e ouvindo um Jazz no seu toca-discos antigão grudou-se definitivamente ao estilo.

Mas essa análise se esquece de que, apesar de nunca mais ter tido a popularidade que teve na época do Swing e das Big Bands entre as décadas de 20 a 40, o Jazz continuou se reinventando e inovando mais do que qualquer outro estilo musical, inclusive se aproveitando da influência do Rock, Funk, Soul, Hip Hop e música eletrônica. E, por incrível que pareça, muitos ‘jovens’ do século XXI ainda ouvem Jazz, e grupos de Jazz ‘moderno’ continuam a aparecer nos lugares mais improváveis.

Enquanto o Rock nascia, na década de 1950, o Jazz teve seu ápice criativo. A partir do Bebop de Charlie Parker, Dizzy Gillespie, no final dos anos 40, o Jazz mergulha na vanguarda e na arte da improvisação. Em 1959, enquanto Elvis Presley dominava as paradas de sucesso, Miles Davis lança o monumental Kind of Blue, John Coltrane aparece com o não menos monumental Giant Steps e Dave Brubeck consegue fazer um disco ao mesmo tempo experimental e muito popular, Time Out. Aí apareceram uns certos Beatles. Diante do avassalador sucesso e a crescente sofisticação musical do quarteto e do monte de artistas que vieram na seqüência, o Jazz parecia não ter muito mais a dizer.

Mas eis que a estética psicodélica da segunda metade dos anos 60 se revela profundamente influenciada pelo Jazz. Aliás, cabe um parêntese: ninguém (nem os maiores estudiosos musicais) consegue precisar com exatidão o que é e o que não é Jazz. O único consenso é que o Jazz é baseado na improvisação. E, da mesma forma, o Rock psicodélico se baseia fortemente no conceito de improvisação. Não é a toa que os Doors tinham formação Jazzística, e Jimi Hendrix levou Miles Davis a fazer Bitches Brew, o marco-zero do Fusion, em 1969.

E Miles Davis, que esteve no epicentro de todas as revoluções estilísticas do Jazz desde que começou sua carreira, ainda iria fazer On the Corner, em 1972. Nesse disco, Miles estava tentando atingir a audiência ‘jovem’. Na época foi um fracasso, mas com o passar do tempo On the Corner se tornou mais um clássico do Fusion, dessa vez com muitos elementos do Funk, e se tornou disco de cabeceira dos pioneiros do Hip Hop. No ano seguinte, o tecladista Herbie Hancock lança Head Hunters, o grande marco do Jazz-Funk.

Já nos anos 80, coube ao Hip Hop levar a influência do Jazz aos jovens da época. Public Enemy, De La Soul e outros abusaram dos samples de Jazz em suas músicas. 3 Feet High and Rising, disco de 1989 do De La Soul é talvez o melhor exemplo dessa leva. Os anos 90 viram a popularidade do Acid Jazz, mistura do Jazz-Funk com elementos de música eletrônica e grande apelo pop, de grupos como Jamiroquai e Brand New Heavies.

O grupo que talvez melhor representa o Jazz moderno seja o trio nova-iorquino Medeski Martin and Wood. O som do trio é calcado no órgão Hammond psicodélico de John Medeski e brinca com a música eletrônica, como pode se ver na coletânea The Last Chance to Dance Trance, lançada no Brasil pela trama. Os Shows que MMW fez no Sesc Pompéia em 2006 tiveram seus ingressos esgotados rapidamente. Outro expoente do ‘novo jazz’ é o pianista Brad Mehldau, que já fez ótimas versões jazzísticas de músicas de grupos contemporâneos como Radiohead.

Em São Paulo, quem quer ouvir um Jazz ao vivo ou tem que dispor de uma boa grana ou garimpar lugares alternativos e festivais gratuitos. As ‘boas casas do ramo’, como o Bourbon Street, o All of Jazz ou o Teta são para quem tem uma conta bancária confortável e são ideais para levar aquela garota difícil para um eficiente ‘gorpinho’ cool. Mas há lugares como o Berlin, que sem cobrar entrada faz ótimas ‘Jazz Nights’ todas as terças-feiras, atraindo uma multidão de jovens ‘descolados’ (palavra horrível) que piram com as bandas que lá se apresentam, sempre com um jazz moderno, dançante e de alta qualidade. E volta e meia surgem iniciativas como o Bourbon Street Festival, que traz grandes nomes internacionais para uma festa ao ar livre. Portanto, deixe o preconceito de lado e caia de cabeça no Jazz, que já foi descrito por um amigo desse que vos escreve como o gênero musical mais ‘viciante’ que existe. Quando você começar a ouvir, não vai mais conseguir parar. Minha sugestão é ouvir os discos acima citados, uma boa introdução a essa divertida droguinha.

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~ por pnoviello em 01/02/2009.

2 Respostas to “Jazz é coisa de velho?”

  1. Eu acho que um bom caminho para entender e gostar de Jazz é deixar de lado a galera pós 1950 um pouquinho e curtir Louis Armstrong e Duke Ellington.
    Jazz realmente não é um ritmo, mas uma linguagem, uma maneira de tocar uma melodia, com uma acentuação totalmente diferente. Como a voz é o instrumento musical menos abstrato, fica mais fácil comprender isso ouvindo Louis Armstrong, por exemplo. A sua maneira de cantar é a base de toda a improvisação que o seguiu.
    Boa Paulada, demorou pra fazer um blog,

    Abração

  2. good post

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