Rio de Janeiro Lado B

Fazia quase dois anos que eu não punha os pés em São Sebastião do Rio de Janeiro, essa aprazível ALDEIA às margens da Guanabara. Estava sentindo falta daquela divertidíssima cidade. A oportunidade surgiu quando a CARIOCÓFILA Cissa mandou email perguntando quem tava a fim de ir trampar no Rio, como parte da máfia dos aeroportos montada por Guimbão e Erick na Fipe. Eu queria, é claro!

O Rio faz parte do seleto grupo das cidades-mito. No mundo, só Nova York, Paris, Londres, Roma, e talvez Tóquio e Berlin, talvez Los Angeles ou San Francisco, são cidades-mito, que mesmo que você nunca tenha visitado, conhece pelos filmes, pela literatura, pela música, pelas lendas. São Paulo, apesar de sua importância, não chega ao nível de cidade-mito. Bem, nunca estive em nenhuma das citadas, mas o Rio é aqui do lado, e assim sendo merece pelo menos uma visita anual. Já sei que para passear e tirar um lazer o Rio é realmente maravilhoso, mas e pra viver e trabalhar? Agora que to formado e não tenho mais agarras que me prendam em SP, to pensando seriamente em procurar trampo em outras paragens, de preferência uma cidade praiana, que acho que fará bem à combalida saúde do meu sistema respiratório. Por esse motivo também aceitei o trampo na Fipe, para fazer um test-drive de como é morar e ralar na Guanabara.

Por uma dessas coincidências da sicronicidade da vida o grande flamenguista Azriano vinha pra SP trampar meio que na mesma época, o que gerou desencontros mas tb uma cerca frango com sua participação no Pouso da Cajaíba, onde ele ficou hospedado, mas ele chegou na terça de manhã e nesta noite eu já tinha que pegar o Cometão rumo ao Rio. Com algumas cervejas na mente  fui pra rodoviária e a viagem passou bem rápido. Em São Paulo já fazia mais de uma semana de frio, chuva e tempo horrível, mas já chegando na BAIXADA FLUMINENSE fui brindado com um belo nascer do sol. Cheguei fácil na casa do Marcel, muitíssimo bem localizada entre o Botafogo e a Urca. O apezinho é muito bem resolvido, pequeno mas aconchegante e com todos os confortos modernos (destaque para o computador ligado na tv de lcd de 42 polegadas, o que resolve tudo que vc precisa).

Só deixei as coisas lá, tomei um banho e fui pra reunião de treinamento num prédio da histórica RUA DO OUVIDOR, no centrão velho. Mandei rapidamente uma coxinha com REFRESCO numa CONFEITARIA da av. Rio Branco antes, delícia. A reunião teoricamente acabava as 13h, mas sabem como é.. tínhamos que nos credenciar lá no aeroporto e como obviamente a INFRAERO tava sem sistema, só fui liberado lá pelas cinco. Pegamos o infame FRESCÃO, busão com ar-condicionado que ia pra zona sul, e resolvi saltar só em Ipanema para aproveitar o sempre maravilhoso pôr do sol. Curti a sensação de sair de um dia de trampo e poder fazer aquele relax numa paisagem como aquela. Ponto pro Rio trabalhador. Ao anoitecer parei no primeiro boteco com aparência AUTÊNTICA, na rua Maria Quitéria próximo ao largo General Osório.

Boteco, ou botequim, no Rio, é um negócio sério. Os caras botam um talento na avacalhação ali. Em SP infelizmente todos os botecos tão virando lanchonete com aparência de fast food, azulejo azul e branco, padronizadas e geralmente com rango bem meia-b0ca. No Rio a tradição do pé-sujo é respeitada e venerada, e em média se come melhor do que em SP, por incrível que possa parecer. E o serviço é mais AMADOR, o que não quer dizer que seja pior, muitas vezes é muito melhor, mas no ritmo praiano tropical, claro, sem a pressa paulistana.

Pois esse botequim, o BAR E LANCHES SABUGOSA é quase um paradigma ideal do bom pé-sujo carioca. O dono é portuga, mas como estamos em Ipanema é um portuga dos seus quarenta e pouco bem DESCOLADO. Cheguei e sentei no balcão para apreciar os quitutes da BAIXA GASTRONOMIA expostos na estufa.

Alguns eram tenebrosos, como as SALSICHAS EMPANADAS, e além do crássico ovo cozido, do tremoço não muito convidativo e dum pedaço de carne assada, o que se sobressaía eram filés enormes de peixe empanado. o cara do lado degustava com entusiasmo um destes, e o portuga disse que era SARDINHA, sem dúvida as maiores sardinhas que já vi. Disse ele que estas eram pescadas em águas profundas, longe da costa, então eram saradas. Três reais cada, pedi uma, claro. A MELHOR SARDINHA QUE JÁ COMI NA VIDA, perfeita, saborosa, com um limãozinho em cima, então… Lembrei do que o Tristão fala sobre as TASCAS portuguesas, onde sempre rola filé de bacalhau empanado, essa sardinha era descendente direta do bacalhau da terrinha. E a frequência do Sabugosa era uma atração à parte. com o jogo do bicho rolando solto ali na calçada, só colava figura. Tinha o negão que tinha uma barraca de praia ali no COQUEIRÃO perto do posto nove e falava da frequencia de subcelebridades e maconheiros do pedaço com toda a malemolência que se espera de um dono de barraca de praia no posto 9. Aí colou um gordinho cabeludo e barbado que era advogado, o mais perto do advogado SAMOANO do medo e delírio que se pode conceber, que encostou no balcão e ficou contando piadas de judeu, de preto, de carioca… Rachei el bico. E, consumidas a sardinha e três brahmas, fui pra casa do marcel, errei o caminho, andei pra caralho, mas consegui achar. No dia seguinte começaria o batente. Sempre penso que indo morar no Rio ou cidade equivalente (ou seja, com praia), vou levar uma vida mais saudável, fazer mais esporte, acordar cedo e tal, mas sempre que vou pro Rio só fico enchendo a lata e me aventurando pela baixa gastronomia dos botecos, e desta vez não seria diferente.

O trampo em si era um tanto cansativo, mas no mínimo interessante. Sempre curti aeroportos, aviões e coisetal, então estava no meu hábitat. O grande problema era chegar e ir embora do Galeão, no tal FRESCÃO. Primeiro pela incostância do horário dos ônibus, pela distância, demora e pelo maledeto ar condicionado no talo onipresente. o deslocamento até o aeroporto era tão ou mais cansativo que o trampo em si. Na hora de fazer as pesquisas, o que mais cansava era andar pra cima e pra baixo e falar trinta vezes por dia a mesma sequência de perguntas, no final já tava dando nó na língua. Mas de resto, trombei várias figuras no aeroporto. De celebridade, só vi o Ney Latorraca, além das delegações do Paraná Clube e do Santa Cruz. Uma parte considerável dos entrevistados trabalhavam em algum grau com a exploração de petróleo na bacia de Campos, muitos trabalhadores das plataformas, que trampam 14 dias na plataforma e ficam 21 em casa, e desses boa parte eram do nordeste. Interessante condição demográfica. Peguei ainda galera que tava trampando em Angola, vários estrangeiros, até um indiano, que tava trampando na bacia de campos, vários patrões e alguns mais humildes que tão podendo viajar de avião agora com as passagens baratas, como um cearense que trampa de garçom no Rio, veio em 92 de busão e só agora pôde ir visitar os parentes no Ceará, by Gol. Enfim, se a Fipe pedisse uma análise qualitativo-impressionista da tendência atual dos viajantes de avião eu conseguiria fazer uma bem decente, mas não era o caso…

A maior parte dos dias trabalhei das 16h as 22h, e claro que dadas as circustâncias eu acabei indo quse todo dia tomar umas na happy hour depois do trampo e nunca conseguia acordar cedo pra pegar uma prainha. Só no domingão consegui dar um mergulho ali no Leme antes do trampo. Entre os botecos visitados lembro do Salvação, um boteco arrumadinho do lado e dos mesmos donos da boa e velha casa da Matriz, em Botafogo. Legalzinho, mas um tanto caro para padrões de boteco carioca. Na segunda-feira o trampo foi mais cedo, e as 18h já tava liberado. Esqueci minha sacola com crachá e outros instrumentos de trabalho no táxi indo pra casa da Cissa, o que me deixou um tanto cabreiro. Fomos andando descendo a rua do Catete e trombamos a Dani, ecana gente finíssima que acabou de passar no concurso da Petrobras e tinha recém se mudado pro Rio. Trombamos ainda inexplicávelmente outro brother ecano na rua, e para celebrar a coincidência escolhemos o boteco mais fuleiro do Largo do Machado, sob os protestos da Cissa, e rolou uma botecagem memorável. O cara tava sem mesa então posicionou uma inenarrável FRUTEIRA com tampo de fórmica para servir de apoio aos copos. Lá pelas tantas começa uma ventania e logo depois começa a chover GRANIZO. a beberagem ganha proporções épicas. Chego em casa não sei como e não consigo levantar pra trampar no dia seguinte, perdendo algumas boas dezenas de reais com isso. Fazer o que…

No último dia de trampo fomos no tradicionalíssimo Arco Iris da Lapa, bem perto dos Arcos, na boa e velha Lapa. Como era quarta-feira tava meio vazio, sussa. Um papel na parede anunciava uma porção de linguiça no MEL que tivemos que pedir. Gostosa, mas enjoativa, e enorme, não conseguimos chegar ao final.

Na quinta, dia livre, fui dar uma banda em Ipanema, assisti o pôr-do-sol no Arpoador, voltei andando pelo calçadão de Copacabana com seu festival de variedade humana sempre divertido, cheguei quebrado na casa do Marcel e agilizei uma ARRAIA ensopada, que ficou uma delícia. Nunca tinha comido arraia, é tipo um cação, como imaginei. Nessa noite já sentia os primeiros sintomas do que pensei que seria uma fatal GRUPE PORCINA contraída no aeroporto. Sexta cedinho, alquebrado, peguei o busão pra São Paulo, também com ar condicionado no talo. Cheguei mais podre ainda, e ainda tinha a missão de por som na Vamoaê Overdose, a qual cumpri com GALHARDIA apesar de estar em estado quase terminal. No sábado mal consegui sair da cama. Fui no médico e o diagnóstico deu um princípio de Pneumonia.

Resumo da ópera, o Rio seria quase perfeito sem os malditos ar condicionados. Infraestrutura urbana ali na zona sul/central pelo menos, é bem melhor que a de SP. Não vi nenhuma cena de violência e azeites semelhantes, não fui extorquido pela polícia (nem dei motivo para tal, afinal sou trabalhador de bem), e todos os cariocas que cruzaram meu caminho me trataram com a CORDIALIDADE TROPICAL adequada. Moraria lá fácil, mas como das outras vezes em que lá estive, senti que o Rio BATE FORTE no organismo do caboclo. Acho que os cariocas devem estar acostumados com o ar condicionado, de resto mandam muito bem nas sabuguices tropicais como as sensacionais casas de suco, com açaí geladinho e baratinho, a água de coco obrigatória, o estilo de vida mais atlético e a praia, ah, a praia. A brisa do mar cura tudo, não há poluição que resista, e olha que teoricamente lá seria quase tão poluído como SP. O fedor de mangue podre da linha vermelha a caminho do Galeão ganha do cheiro do Tietê/Pinheiros, mas é só ali. E as garotas de Ipanema, ah essas sempre continuarão coisas lindas e cheias de graça…

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~ por pnoviello em 13/08/2009.

2 Respostas to “Rio de Janeiro Lado B”

  1. nossa, eu ri muito velho, obrigado!! o tcc em ritmo medo&delírio fez bem à sua prosa!! valeu!!

  2. cara, a coisa que mais me envergonha aqui na vila madalena são esses bares que se chamam de botecos e cobram 6 contos uma cerveja. viva o rio e seus legitimos botecos

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