Churrasco em tempos de sustentabilidade

Ah, churrasco, esta palavra mágica. Tá ali concorrendo com o futebol, samba, mulher e cerveja ao posto de PAIXÃO NACIONAL. Se misturar tudo em um só evento, temos um resumo do Brasil. Os gringos que vêm pro Brasil alucinam com uma picanha sangrando, e muitos brasucas (principalmente gaúchos) sacaram isso e tão enchendo o bolso de euros e dólares fazendo churrasco nos EUA ou na Europa.

Meu amigo Cróvis costuma dizer que churrasco não é comida, é evento. Evento social, de confraternização entre amigos. É assim desde a AURORA DA CIVILIZAÇÃO. Assim que o primeiro hominídeo descobriu o fogo e que, se colocar a carne daquele bicho caçado no fogo, ela fica bem mais gostosa. O consumo de proteína animal ajudou o homem a se desenvolver. E desde então juntar-se em volta do fogo para assar uma carne virou um dos principais RITOS que separam o homo sapiens de seus colegas com cérebro menos desenvolvido. É isso, a gente assa e come a carne deles porque nós somos mais espertos. Eles fariam o mesmo no nosso lugar.

O boi que a gente conhece hoje se desenvolveu ao ser domesticado pelo homem para servir a vários propósitos. O boi fornece carne, couro, os ossos podem virar gelatina e ser matéria-prima de vários artefatos, até os pêlos das orelhas viram pincel.

Como todo bom malandro brasileiro, adoro um bom churrasco. Lembranças de churrascos na casa dos meus primos, avós, etc, remontam à mais TENRA infância. Meu pai era até amigo do lendário MARCOS BASSI, o artesão das carnes. Lembro de quando ele tava bem de vida chegar com um isopor cheio de carne do Bassi pra fazer churrasco. Delícia. Com meu pai, que aliás fez 52 aninhos ontem, aprendi alguns macetes pra deixar aquela carne normal um manjar dos deuses. E logo comecei a praticar.

Lembro que meu primeiro porre de verdade foi num churrasco, na casa do meu velho amigo Rafael Saad, quando eu tinha meus 14 anos. O churras se desenvolvia normalmente, só na base das brejas do avô do Saad, quando encontrei uma garrafa de vodka no fundo da geladeira. Não prestou. No colegial, ficaram tradicionais os churras de sexta a tarde na casa do Christian, lá pros lados da VILA CARRÃO. A gente pegava o metrô até lá e, claro, a carne não era a atração principal, e sim os litros de cerveja e caipirinha que geralmente eu preparava para aprovação geral. mas fui ganhando experiência em realização de churrascos sob condições adversas.

Na faculdade tive a oportunidade para desenvolver ao máximo a técnica churrasqueira em incontáveis queimas de boi. A mais lendária foi em Juquehy, na casa do Thomaz, quando sob o efeito de diversas substâncias, fizemos uma picanha TRANSCEDENTAL, quase na consistência de MANTEIGA, as 8h da manhã duma segunda feira fria. Acho que devo ter participado de uns MIL churras na vida.

Mas não é fácil a vida do ser carnívoro churrasqueiros nesses tempos. Afinal de contas, o churrasco sem dúvida gera uma PEGADA no meio ambiente. Obviamente temos o boi, que virou o grande vilão do desmatamento da amazônia, além de claro, ser feito de carne, e ser um ser vivo de origem animal, o que gera desentendimentos com o pessoal vegetariano. Além disso tem a teoria de que a FLATULÊNCIA dos bovinos contribui para o efeito estufa. Bem, eu nasci onívoro e não pretendo mudar, afinal quem come de tudo não passa fome. Mas bem sei que exagerar na picanha não é muito saudável para o organismo, portanto ultimamente procuro balancear com uma saladinha, uma abobrinha na brasa, uma fruta, pq não é fácil não… Aí temos a LINGUIÇA, o FRANGUINHO, etc, que tb tem detratores prontos para enumerar seus malefícios.

E temos ainda o CARVÃO, ainda mais difícil de defender, pois trata-se de ÁRVORE INCINERADA. Hoje temos carvão ecológico, proveniente de eucalipto de reflorestamento, mas ainda assim ele libera uma pá de carbono e FULIGEM na atmosfera.

E temos toda a lixaiada que um churrasco gera. Rapaz, eu já presenciei verdadeiras montanhas de lixo surgirem ao final de churras homéricos. E não tem muito o que fazer além de jogar tudo num grande saco preto e deixar na mão do lixeiro. Impossível separar orgânico de reciclável. E, claro, cada um que traz carne, cerveja, etc, a traz envolta em várias camadas de plástico, dentro dos famigerados saquinhos de supermercado.

É possível fazer um churrasco ‘carbono zero’? Creio que sim, mas provavelmente vai dar muito mais trabalho. Primeiro, o boi, o frango, o porco, devem ser orgânicos, criados na base de capim e carinho, sem maus tratos, o que exige um sítio, que tb vai fornecer as verduras orgânicas pro vinagrete e pra salada, e a lenha pra virar brasa. A cerveja é uma questão delicada. O ideal seria vc fazer sua própria breja artesanal, o que não é tão difícil quanto pode parecer e vai gerar um produto bem melhor que as brejas industrializadas que se vê por aí. Mas sei que vc não vai encarar esse trampo, então o que é melhor, cerveja de garrafa ou lata? Ambas tem seus prós e contras. As garrafas e seus engradados, além da tradição e do aspecto lúdico de colocar as garrafas vazias de volta às grades e empilhá-las, tem a seu favor a simpatia do conceito RETORNÁVEL, você só paga pelo vasilhame da primeira vez, nas próximas é só o líquido. Definitivamente gera menos lixo. As latas são recicláveis, claro, e seu recolhimento para reciclagem gera toda uma economia de pobres diabos que vivem de catar latinha. Mas deixam um aspecto de caos maior ao churrasco, provocam maior desperdício de cerveja e os plásticos que as envolvem aumentam mais a massaroca plástica que vai ficar por centenas de anos atulhando o planeta. Eu particularmente voto sempre a favor dos cascos.

Concluindo, rapaz, é difícil mudar hábitos, ainda mais tão ENRAIZADOS na cultura quanto o churrasco. Mas podemos adotar o PRIMITIVISMO  e fazer churrasco a maneira de nossos ancestrais pré-históricos, a natureza vai agradecer. Eu nunca tive que CAÇAR minha própria comida, deve ser divertido. Enquanto isso, vou tentar fazer churras que gerem menos lixo, mas sempre salivando na hora de fatiar aquela picanha mal passada.

Interessado em tornar sua vida mais sustentável? recomendo ler o Ecoblogs! melhor reunião de blogs sobre meio-ambiente, ecologia e sustentabilidade do Brasil.

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~ por pnoviello em 04/09/2009.

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