O dono da Black Rio

Desde o Carnaval não escrevia aqui, e após observar a QUARESMA e queimar os neurônios trampando na cobertura incansável do BBB 10 (o qual merecia um post mas estou com uma preguiça…), volto à carga neste querido SP Lado B narrar o peculiar encontro que tive no SÁBADO DE ALELUIA com a figuraça que atende por William “Monster” Magalhães. Filho do lendário Oberdan Magalhães, fundador da não menos lendária Banda Black Rio, ele é o dono das sensacionais composições do finado Oberdan e hoje é o responsável por fazer o nome Black Rio voltar a agitar BAILES pelo Brasil afora, levando a sonzera aos ouvidos jovens, e muitas vezes, brancos.

Bem, vejamos. O sábado de aleluia amanheceu chuvoso em São Paulo e logo de manhã cedo já tinha uma MISSÃO: fui convidado pela minha linda namorada para o casamento de sua chefe, no alto da serra da cantareira. Missão de RESPONSA. Após assumir a função de NAVEGADOR no rali até chegar ao local do casório, assistimos a cerimônia e começou a maratona etílica: caipirinhas, espumante e cerveja acompanharam o almoço crássico, com direito a strogonoff, ravioli e escalopes ao molho madeira. Apesar da ajuda alcoólica, estava me sentindo deslocado ali, onde só conhecia a minha menina, o vina, e por incrível que pareça, o irmão do noivo, numa dessas coincidências da vida.

Voltamos pela serra quase escura, com a chuva não dando trégua, e o vina bêbado capotado e roncando no banco traseiro. Foi quando recebi a ligação do comparsa Montanha, dizendo que, apesar das INTEMPÉRIES, estava rolando um churras convocado pela Dani, a Pônei, eu sua nova residência, que no caso era a mesma do sr. Rod Bergel. A minha menina estava cansada e resolveu ficar dormindo. Eu sei que deveria ter ficado fazendo companhia, mas fui liberado e embarquei no carro do Montanha, que também tinha Brunão no banco do passageiro, e rumamos pela Rebouças rumo a Pinheiros.

Lá, pouca gente, clima intimista, uma peça de picanha e muita berinjela para assar. A coisa transcorria suave quando chega a já conhecida como “judia mais legal do mundo” Mari Bergel, também conhecida como irmã do Rod e como produtora da nova encarnação da Black Rio, função na qual é assessorada por Caco. Miss Bergel estava acompanhada por uma mano que não demorei muito a perceber que era RAPPER, e que, apesar da pose gangsta, era sangue bão.

Ela anunciou que ia rolar show da Black Rio no Grazie a Dio naquela noite, e estava todo mundo convidado, havendo a possibilidade de todos entrarem Vip. Como o churras tava miando, minha menina tava capotada e eu não tinha dinheiro, a possibilidade de entrar Vip no pomada Grazie a Dio e ver de perto a sonzera da Black Rio foi irresistível. Entramos no carro da Mari, eu no banco de trás e o MC na frente, e logo ele deu a letra: “olha o marcador da temperatura, o carro vai ferver. Você coloca água?”, perguntou o mano para a mina, que respondeu nunca ter colocado água no radiador.

A gente encostou no posto da Inácio e de fato o radiador estava seco e o motor a pouco de fundir. Demorou e foi preciso muita água pra normalizar a situação, e após esse contratempo adentramos o Grazie a Dio, no qual eu nunca tinha posto os pés. Tava 25 conto pra entrar, e pensei: “espero que esse vip role mesmo, senão tô enrolado”. Lá dentro, casa cheia, cheia principalmente de preiboizada e muitas belas e esvoaçantes moças, mas como agora sou um homem de uma mulher só, tentei ignorar esse fato.

Segui a Mari e o MC até o camarim, onda Caco estava tentando apressar o nosso herói “Monster”, que sentado, parecia numa relax, numa tranquila, numa boa, sorvendo um tinto chileno e queimando uma ponta. Logo ele se levantou e foi rumo ao palco. Respaldado por músicos jovens, nem todos negros, ele se sentou atrás do teclado e começou com uma sonzera dos bons tempos da Black Rio.

Essa formação da Black Rio está sendo alvo de algumas críticas de puristas, afinal é claramente uma reunião de músicos PROFISSIONAIS DA NOITE, produzidos pela competente miss Bergel, com o objetivo de ganhar uma graninha boa tocando para um público endinheirado em baladas descoladas, principalmente em São Paulo. Bem, vendo aquele show não haveria muito como discordar. Com um vocalista elegantemente trajado e portando DREADLOCKS, que comentou sobre o BBB, disse estar feliz pela família Bergel ter estado na LISTA DE SCHINDLER e cantou standards baladeiros de Jorge Ben, Tim Maia e alguns outros, entre as composições instrumentais da Black Rio em si, e até atacou de PAGODEIRO num dos momentos em que o William sumia no camarim, o show, apesar de divertido foi bem “pra branco ver”, tirando o momento em que Pixote e nosso amigo MC subiram no palco para mandar um RAP DO BOM. Como alguns sabem, a Black Rio está se aproximando da cena Hip Hop paulistana e fez um disco com Mano Brown e outros membros do Racionais.

Mas o que importa aqui nessa narrativa é menos o show do que o pós-show. De volta ao camarim, me sentei ao lado do “Monster” para cumprir a promessa que havia feito antes, de botar um CABROBÓ diretamente do nordeste para ser degustado. Então William começou a disparar a língua, e sem gravador nem nada para anotar, tive que tentar memorizar algumas coisas para registro aqui. Na companhia, além dos outros músicos, Caco, Mari, Belina, Dani e Xan.

Ele começou improvisando uma letra de bossa nova, mostrando o nato talento para criar rimas e melodias. Claro que não lembro da letra, mas falava de amor. Declarou seu amor pela bossa nova, e afirmou que infelizmente a bossa ficou como estilo musical criado por brancos, lembrando do recém-falecido Johnny Alf, e do sambista do morro Geraldo Pereira (é isso mesmo?  historiadores musicais help), que ao lado de João Gilberto e Tom Jobim criaram a bossa nova. Lembrou de Tim e Ben, e quando o papo caiu no samba, afirmou que sua família remonta as raízes do samba no Rio de Janeiro. Disse ser sobrinho do grande Silas de Oliveira, que compôs “Aquarela Brasileira”, talvez o mais bonito samba-enredo de todos os tempos, da gloriosa Império Serrano. Disse que outra tia foi por 70 anos tesoureira do Império Serrano, e que em sua casa toda a nata da era de ouro do samba entrou, comeu e sambou. Criticou o Rio “Lá fica todo mundo de frente pro mar e de costas pro mundo. É aquela cultura de praia, de culto ao corpo, e nada de cérebro”, elogiou São Paulo “aqui a galera tem outra mentalidade, conhecem a cultura, respeitam, pode ser branco, preto”. Falou que já tocou em festivais nos EUA e na Europa e foi reverenciado por gente como Jamiroquai e Ben Harper. Repetiu várias vezes que é sociólogo e tentou inserir o movimento Back Rio no contexto da luta dos negros pelos seus direitos. Apesar de estar mais para mulato, disse ser negro e que detesta quando dizem que ele é “moreno”. Disse que a herança da escravidão ainda está aí: “pode ver, quem é pobre, favelado? é o negro”, e claro, afirmou ser favorável às cotas. “quem vai entrar é o negro inteligente”. Contou também que quando moleque, estava de saco cheio do samba e resolveu aprender piano, e enveredou pelo jazz e pela música erudita, mas que as raízes e o trabalho do pai falaram mais forte, e reconheceu que não dá pra fugir do samba. “o samba tá entranhado, faz parte da gente, não tem jeito”.

Aí que surgiu a louríssima Xan e começou a provocar nosso herói na questão da negritude. Claro que isso evoluiu para algum tipo de xaveco cósmico, e em certo momento noss herói William propôs casamento à loura, elogiou todos os branquelos mundrungos presentes e lançou uma bela definição do MUNDRUNGUISMO: “vocês são pessoas pacíficas, mas não passivas. São pacíficos-contestadores”. Touché.

Após uma pequena interrupção devido a um ENTREVERO do Pixote com dois manos que apareceram ali pedindo cigarro pra todo mundo e acabaram pedindo pra pessoa errada, no caso o próprio Pixote, que até deu um Marlboro, mas ficou puto quando o cara pediu o segundo, Xan elegantemente se esquivou das investidas do William, eu estava quase dormindo e a galera resolveu dispersar. Eram cerca de quatro da manhã e percebi que iria ainda penar um pouco até chegar em casa. Fui andando, descendo a cardeal com sono e dor de cabeça, atravessei o escuro e irreconhecível largo da batata, e só parei no ponto da faria lima com a rebouças, onde peguei o 875C e ainda andei mais um pouco até finalmente chegar em casa e capotar com a voz de Galvão Bueno narrando a fórmula 1, potente sonífero, para só acordar depois das 15h da tarde no domingo de páscoa.

De resto, acho que uma entrevista um pouco menos alucinada com William ‘Monster’ Magalhães renderia um belo perfil. Vamos tentar fazer rolar isso…

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~ por pnoviello em 06/04/2010.

6 Respostas to “O dono da Black Rio”

  1. Que papinho esse do cara hein… O samba tá entranhado. Se for assim, há mais “fatalidades” na vida dos “negros” que estariam entranhadas?

  2. … e coloca a observação que é Dom Pixote, senão vão confundir com MC Pixote que é um funkeiro meia bomba.

  3. a proposito, queimando uma ponta é maconha ou apenas cigarro ? se for maconha, voce ferrou o cara . rsrsrsrs

  4. Ah, muito bom, fiquei com vontade de ter ido, a festinha na Dafne deixou a desejar.
    Anyway, tava pobre.
    Bração!

  5. Adorei o texto meu querido. Como estava presente na situação fiquei impressionada com sua memória. Eu tinha tudo como flashs em minha cabeça, foi bacana remontar todas as partes através da sua ótica

  6. Taí…, bacana mesmo…É uma boa e competente prosa. Parabéns velhinho. Gostei da rima. O texto é bonito e inteligente, não entende quem não quer. A propósito tá escrevendo onde? Estou ouvindo um som bem branquinho, Earth, Wind and Fire!! Oh Bicho!! Alguém precisa ser menos ou mais branco ou preto ?

    Valeu parabéns, Paulo.

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