Tradicional relato da Virada Cultural by Paulada – Versão 2010

A Virada Cultural chegou à sexta edição em São Paulo como um evento já consolidado no calendário da cidade. O sucesso da iniciativa é inegável, mas os problemas persistentes também. No ano passado encarei as 24 horas da Virada que renderam um post extenso e um capítulo do meu TCC. Agora, a pretensão era menor e a disposição, muito menor. Mas encarei algumas atrações, o suficiente para fazer mais uma edição do tradicional relato Paulada da Virada Cultural.

Alguns, como o Forastieri, criticaram a programação pelas poucas atrações relevantes e muitos shows “pega-trouxa”. Mas ainda assim dava pra peneirar e pegar alguns caras realmente bons, além de arriscar no imprevisível e se surpreender com algum nome desconhecido. Pois assim foi.

Sabadão ensolarado, acordei no apartamento da minha digníssima namorada, estrategicamente localizado a poucos passos da Praça da República. Fomos tomar o café da manhã na excelente, embora cara, padaria Santa Efigênia, localizada no Copan. Delícia. Depois, demos uma primeira pernada pela região, onde já estavam sendo montados os palcos e demais infraestruturas para a balada, e passamos no mercado pra comprar o almoço.

A Gisele estava disposta a me ensinar sua infalível receita de quiche de alho poró, e assim foi feito. Enriquecido por frango, o quiche ficou pronto lá pelas 16h e tava uma delícia. Pena que a pobre ‘operária da notícia’ tinha que encarar plantão no jornal e não conseguiu comer. Após me deliciar e lavar a louça, deitei no sofá para a necessária bodeada e qual não foi minha surpresa ao ver que estava passando GOONIES no SBT. O clássico me distraiu por algum tempo, e peguei no sono quando começou um outro filme, sobre uns moleques e ursos polares no ALASCA.

Acordei e o sol já estava se pondo. Traçei mais um pedação do quiche e tomei a primeira cerveja da noite. Enchi uma garrafinha d’água até a metade com uma cachacinha Seleta, coloquei mais três latas de breja, além de duas mexericas, na mochila, e parti rumo ao palco da Av. São João com o Anhangabaú, onde as 19h o bruxo Hermeto Pascoal abriria o palco, que prometia ser o melhor da virada, ao menos em termos musicais. Tentei achar alguém conhecido na multidão que começava a se aglomerar e se embebedar, em vão. Fiquei curtindo o sempre sensacional show do Hermeto e sua excelente banda, tomando as brejas trazidas antes que esquentassem.

O primeiro conhecido que encontrei foi o Caju, mas logo ele e sua turma da FFLCH foram para outro palco. Cansado de ficar sozinho, consegui me comunicar com o Cróvis, que estava a caminho, com Tato, Tristão e Marion. O audacioso projeto de descolar um carrinho de sorvete ou plataforma móvel equivalente para transportar breja não rolou, mas pra compensar, o tristão fez uma mega-caipirinha e meteu no tradicional Jacu (uma garrafona térmica), que ajudou a manter o nível etílico adequado. Nos instalamos numa clareira em meio ao mar de gente no calçadão da São João e a galera amiga começou a se juntar magicamente. Quando me dei conta já tinham uns 20 conhecidos a minha volta, inclusive a Gisele, já liberada do plantão.

E aí as coisas começaram a ficar estranhas. Se bem me lembro, nessa hora o mestre Booker T já estava no palco, esmirilhando no órgão Hammond. O som tava bom mas o clima do público tava meio NÓIA, o que pressenti quando tentei ir no banheiro e tava rolando um empurra-empurra dosinferno no espaço entre o palco e o prédio do Correio. Não fiquei muito surpreso quando o Leomil, e depois o Wallinho, disseram que tiveram os celulares surrupiados ali naquele gargalo. Outro momento tenso foi quando caiu a pressão da Denise e ela só não foi ao chão porque o Crovis a amparou, a levantou no colo e, no melhor estilo Kevin Costner em ‘O guarda-costas’, levou a japinha para fora da aglomeração.

Ela se recuperou parcialmente, mas estava fora de combate para o resto da virada, e por extensão, o Cróvis também. A Gisele estava determinada a testemunhar o show do MITO Sidney Magal no palco brega, tradicionalmente localizado no largo do Arouche. Juntamos coragem e rumamos para o Arouche, com Tristão e Marion. Lá, tava bombando, mas o público, em grande maioria da turma LGBT (GLBT, GLTB?), estava mais PACÍFICO do que no Anhangabaú. Mas, assim como no Anhangabaú, a visibilidade do palco era péssima, obstruída por árvores, inúteis bases da PM, placas, postes, etc, etc. Como eu não fazia muita questão de ver o corpo do sr. Magal, não me importei muito e ficamos em um canto com espaço apra se mexer, e não foi difícil encontrar o Johnny e sua galera que haviam dito que não perderiam o Magal por nada. Visivelmente (pelo menos pelo que consegui ver) emociado com o grande público que cantava e dançava suas músicas, o ícone brega mandou ver nos clássicos como aquela música da Rainha da Sucata, aquela outra que eu esqueci o nome e, claro, as sensacionais SE TE AGARRO COM OUTRO TE MATO, O MEU SANGUE FERVE POR VOCÊ e CIGANA SANTA ROSA MADALENA, que previsivelmente gerou o momento mais catártico da noite.

Terminada a apresentação do Sidney, o Magal, decidimos ir rumo ao palco da praça Júlio Prestes, na outra ponta da Duque de Caxias, onde rolaria o show do Living Color, talvez a maior atração internacional da Virada. A caminhada atravessando o coração da CRACOLÂNDIA cansou, e o som pesadão e gritado do Livingo Colour era mais apropriado a uma bateção de cabeça ensandecida que definitivamente estava fora das minhas condições físicas atuais. O Mau Grilli, fã da banda desde o SÉCULO 20, apareceu, ensandecido. Ele logo saiu correndo para perto do palco. Tristão e Marion também estavam cansados e foram para o metrô. Eu e a Gisele iniciamos a caminhada de volta ao prédio dela. Capotamos lindamente, para só sair da cama pra lá da uma da tarde do domingo.

Novamente, a minha trabalhadora namorada tinha que encarar plantão no jornal. Até pretendíamos pegar algum show antes dela entrar, mas não rolou. Após levar ela até a porta da Folha, colei no palco reggae, na mesma Barão de Limeira. De dia, o clima da virada é muito mais SUAVE, apesar disso tinha uma galerinha num estado lastimável. Como era esperado numa REGUEIRA, uma espeça névoa de marofa pairava, e no palco, o tiozão jamaicano Clinton Fearon mandava um reggae roots muito bom. Sozinho, tomando água, fiquei lá curtindo o som. Acabado o show, sem saber pra onde rumar, já que as atrações do horário não pareciam muito convidativas, decidi ir pro bom, velho e tretado palco do Anahangabaú, onde estaria se apresentando a grande Flora Purim. A essa altura já sabia que durante a tumultuada madrugada, pouco depois da gente ter vazado, um mano foi esfaqueado numa briga no palco, em pleno show do Temptations. Chegando lá, tava bem vazio, o público muito sussa e Flora, acompanhada pelo marido Airto Moreira e uma banda espetacular, estava mandando uma baita sonzera. E eis que encontro, sentado com a namorada e um casal de amigos, o mesmo Alucinado Grilli que estava pulando loucamente na noite durante o show do Living Colour. Agora o clima era outro. Sentei lá e ficamos diboa, tomando umas brejas e apreciando o som.

Acabada a apresentação de ‘natural sounds’ fritation de Flora, a próxima atração estava anunciada como uma certa LETIERES LEITE & ORKESTRA RUMPILEZZ. Nunca tinha ouvido falar, mas o nome era legal. Uma galera vestida de branco começou a subir no palco, afinando seus vários instrumentos de sopro. Naipe de trombones, trompetes, saxofones e até TUBA começaram a se perfilar, enquanto o roadie tentava fazer o operador da mesa de som deixar todos os instrumentos do jeito. ATABAQUES e tambores afro diversos também foram colocados no palco. Demorou uma meia hora pra tudo ficar ditreitinho. Mas quando começou o som, RAPAZ, que sonzera. O tal Letieres Leite, um tiozinho com forte sotaque baiano, entregando a origem da orquestra, agia como um veradeiro maestro, e também tocava sax. O som, bem, a proposta explicada era unir a riqueza rítmica da percursão afro-baiana com o jazz. O resultado era um AFROBEAT CANDOMBLÉ insano que deixaria o próprio FELA KUTI comovido. Sonzera das GRANDES. Valeu por toda a virada meia boca. O pôr do sol em diversos tons entre o azul, o PÚRPURA e o vermelho profundo ajudou a compor o clima. Acabado o show, já escuro, eu estava exausto, mas feliz. Andei arrastando os pés até o terminal bandeira, comprei dez minicoxinhas e um suco TAMPICO e cheguei em casa acabado, mas realizado. A Virada Cultural 2010 havia, com ressalvas, cumprido bem sua função, ao menos pra mim.

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~ por pnoviello em 20/05/2010.

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