Amizade, brodagem, solidão e carregadores de caixão

EGOTRIP MELOSA ALERT ON:

Diz-se que você só conhece de verdade quem são seus amigos no fim da vida, e é bom que até lá você tenha ao menos seis deles vivos para carregar seu caixão. Um dia, num lampejo de sabedoria etílica em fase avançada de cerca-frango, o Bigode, esse amigo de fé irmão camarada incontestável, me deu um toque baseado nessa frase acima, por achar que as vezes eu chamava de amigos pessoas que no máximo poderiam receber a designação de ‘brothers’, ‘colegas’ ou no máximo ‘conhecidos’. Na hora achei que ele estava exagerando um pouco, mas agora vejo que tinha toda a razão.

Na primeira fase da minha vida, aquela que vai até o fim do colegial, colecionei alguns poucos amigos de verdade. Alguns, como o Thiago, inseparável naquela fase definidora de por volta dos dez anos, perdi o contato. Outros que conheço desde aquela época, como o Rafael Saad, o Tchey e o Toti, ainda vejo de vez em quando. Mas eles e tantos outros camaradas da escola, do prédio, etc. daquela época eu sempre vi como pessoas com personalidade muito diferente da minha, que desde muito moleque, apesar de disposta às brincadeiras de esconde, polícia e ladrão, pega-pega, jogar futebol, videogame, etc, sempre as alternava com momentos de solidão, quando a maior companhia tolerável era de algum livro. Esse lado ‘intelectual-mirim-solitário’ sempre me alienou um pouco da galera com interesses de vida mais comuns.

No colegial, em escola nova, fiz um esforço consciente para, apesar das óbvias diferenças de personalidade, conhecer o maior número de pessoas possível, dos diversos grupinhos, e acabei sendo alguém que se poderia considerar popular. E obviamente, olhando em retrospecto, desta grande galera que conheci, poucos ainda podem ser considerados amigos, e destes apenas um, o João, um dos que com certeza carregaria meu caixão, tenho contato frequente até hoje.

Graças a essa invençãozinha mágica chamada internet, conheci muitas pessoas com interesses comuns, intelectuais ou de fonte menos nobre, espalhadas por vários recantos do Brasil. Conheci pessoalmente alguns deles, principalmente a galera do Rio. Fiquei na casa de alguns, como a Letty e o Fred, tive intermináveis conversas e me dei conta que, ainda bem, existiam pessoas parecidas comigo. Mas apesar disso não sei se poderia considerar qualquer um destes amigos ‘pra carregar o caixão’. Talvez o fato dos amigos com personalidade e interesses tão diferente da minha, mas que ainda sim gostam de mim o suficiente para me considerar um amigo, signifique algo.

Aí passei no vestibular e entrei na gloriosa, salve-salve, ECA-USP. O crivo da Fuvest fez com que pela primeira vez na vida eu estivesse cercado de pessoas com cabeça muito parecida com a minha. Ainda assim, o processo de conhecê-las e formar laços fortes de amizade com alguns foi complexo e sempre mediado pelo álcool ou outro aditivo que pode nublar bastante o julgamento em relação a esse tipo de coisa. O meu lado ‘festeiro-sociável’ logo me fez conhecer uma porrada de gente e sem dúvida ser uma figura popular da faculdade, celebridade que as vezes até me assusta um pouco. Mas não raro me sentia (e ainda sinto) absolutamente sozinho e destacado de todos, mesmo em meio a um monte de gente conhecida numa festa. Talvez por isso comecei a gostar de dar um trampo na produção das festas, e mais especificamente, de botar um som, FUNÇÃO SOCIAL das mais nobres e que permite expressar através da música o que sinto no momento.

Hoje, se for contar, talvez o número de amigos que considero verdadeiros passe de dez, mas com certeza quando eu estiver no fim da vida alguns não estarão na lista dos ‘carregadores de caixão’. E todos, exceto talvez uma, são homens. Aí entra a questão. É impossível a amizade verdadeira e desprovida de interesse sexual entre um homem e uma mulher (heterossexuais, claro)? Não sei, e tenho muita simpatia pelo belo conceito de ‘amizade colorida’. O fato é que o tempo vai passando, e a maioria dos seus amigos de fé irmãos camaradas companheiros de vida vão se casando, se juntando, e a partir deste momento a CARAMETADE passa a ser prioridade. E, meio envergonhado, reconheço que rola um ciúme destas pessoas que se colocam irremediavelmente entre você e um amigo, principalmente quando você continua sem alguém assim na sua vida.

Pois bem, após algum tempo me sentindo assim, finalmente apareceu uma moça na minha vida. Já tinha tido alguns rolos e enroscos, mas nada que se pudesse configurar um relacionamento de verdade. E este começou assim, de forma meio fortuita, mas logo avançou para o terreno mágico da amizade colorida, até que ambos nos déssemos conta de que se tratava de namoro. E neste preciso momento em que vira namoro, surge a questão do ciúme em relação aos amigos do (a) respectivo (a). E aí você percebe o outro lado da questão exposta ali no parágrafo acima. Bem, como diria o grande filósofo KLEBER BAMBAM, “faz parte”. Só espero que, ao contrário do meu pai, por exemplo, que perdeu totalmente o contato com quase todos seus amigos após CONSTITUIR FAMÍLIA, quando eu ABOTOAR O PALETÓ tenha pelo menos o contato de seis pessoas que se disponham a carregar o caixão.

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~ por pnoviello em 06/06/2010.

Uma resposta to “Amizade, brodagem, solidão e carregadores de caixão”

  1. Tomara que você não esteja muito pesado quando passar desta pra melhor. Salve Paulo Motta!

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