Homenagem ao Flavião e ao sétimo e meio andar

Era uma vez um moleque que, vai saber por que, queria ser jornalista. E sei lá como, ele conseguiu passar no vestibular pra jornalismo na ECA-USP, um dos mais concorridos do vestibular mais concorrido do país. E, bixo de tudo, esse cara caiu no VÓRTICE conhecido como ‘CA da ECA’. Com seus coleguinhas bixos, esse cara começou a conhecer a veteranada e galera agregada que frequentava o CA. Entre eles estava os CABELUDINHOS, entre eles um mais velho, já careca na frente mas ostentando seu rabo de cavalo atrás. O bixo abestalhado não consegue entender de imediato o que representavam esses cabeludos. E tinha até medo de, se ficasse lá muito tempo, acabar igual o careca cabeludo.

Com o passar do tempo e do convívio, o bixo e sua turma, que adoravam uma bagunça, se enturmaram muito bem com os veteranos, inclusive esses veteranos lendários e cabeludos, que diferiam dos veteranos imediatos, meio “coxinhas”, pra usar a linguagem corrente. O bixo ficou amigo de muitos deles, e um dos que se tornaram seus melhores amigos era o tal careca cabeludo, o Flavião. Descobri que o figura trampava como diagramador do Jornal da USP. Ele foi até no JUCA daquele ano, o último que encarou. Mas a EPIFANIA do que significava todo esse MUNDRUNGUISMO foi no famigerado Fumeca, sob chuva torrencial, onde a MAIOR BANDA DO MUNDO, os Lisérgicos Românticos, formado por TODOS estes mundrungos, e com Flavião encarnando JOHN BONHAM na bateria, sem baqueta.

Mas só conheci bem o Flavião quando comecei a estagiar no SÉTIMO E MEIO andar do prédio da Antiga Reitoria, na gloriosa revista ESPAÇO ABERTO, que tinha um cantinho na redação do Jornal da USP. Sempre que chegava, lá pelas 14h, ele me dava uma aloprada no caminho pra sua mesa, de onde tinha talvez a melhor vista da USP. Naquela época, a galera ainda fumava lá, veja você, e Flavião detonava um maço de Marlboro vermelho em uma jornada de trabalho. O chefe também fumava um cigarro atrás do outro, única vez em que realmente presenciei o clichê romântico de jornalistas fumando milhares de cigarros e tomando milhares de cafés no FECHAMENTO. Isso fazem oito anos, e o pouco menos de um ano que trabalhei lá, que aproveitei menos do que poderia, ainda sim foram e provavelmente serão a melhor época da minha vida.

Nestes oito anos de convivência, aprendi com Flavião e sua verve, sabedoria e experiência de vida, muita coisa sobre história, jornalismo, são paulo, roma, a usp, a política, o futebol, etc, etc.. e descobri que ele nasceu no mais puro BRÁS´(na verdade, no Pari), de uma família portuga, e é corinthiano, claro, apesar do pai ser são-paulino. Cresceu durante a ditadura militar, em uma família humilde que conseguiu aproveitar um pouco o MILAGRE no início dos anos 70 até a crise que chegou ao auge nos anos 80. No Brás, se inteirou na MALOQUERAGE local, inclusive entre a galera operária, sindicalista, anarquista, etc, como o sapateiro espanhol que vendia literatura anarquista. Estudou no colégio José de Anchieta, cercado por italianos, judeus, árabes, etc. Ia nos bailes lendários da época, no CURINTIA  e outros clubes. No do Clube Tietê, conheceu a lorinha com quem ia acabar se casando e tendo uma filha linda, Marina, nascida literalmente no meio do stress do Plano Collor, imaginem só. Garoto inteligente que gostava de ler, ele entrou em Direito no Mackenzie, se envolveu lá no movimento estudantil, em meio à galera predominantemente de direita do Mackenzie mas se tornou militante do então recém-nascido Partido dos Trabalhadores. Estagiou em escritórios de direito mas não conseguiu acabar a faculdade, em meio ao clima de liberou geral do fim do Regime Militar. Foi trabalhar na Folha de S. Paulo, primeiro como peão mesmo, mas depois passou a trabalhar na composição dos jornais que iam para a gráfica. Em 1988 passou num concurso para fazer o mesmo no jornal da USP. Acompanhou a mudança com a chegada dos computadores, e agora trabalha num Mac Pro de última geração. Em 22 anos de convivência na USP, passou por muitas e boas, até terminou o casamento, e foi morar em repúblicas com seus amigos moleques da ECA. Diz que teve uma ‘segunda juventude’ nestes anos. Hoje talvez seja o último dia em que o Flavião vai trampar lá no sétimo e meio andar. Realmente foi privilegiado por ter uma qualidade de vida rara em São Paulo, mas mereceu, ao menos por tantas pessoas que passaram por aquele CA da ECA e foram privilegiadas com a sua companhia, entre eles esse moleque que chegou na ECA e tomou um susto quando o conheceu. Ele tem talvez mais 8 anos até se aposentar. Será que nesse tempo ele vai voltar a fazer sua caminhada diária pela Cidade Universitária?

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~ por pnoviello em 16/02/2011.

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