Sábado gelado e inesquecível em São Paulo

Sabe aqueles raros momentos em que você realmente se dá conta que está em meio a algo maior, algo legal mesmo, algo que vai ser lembrado, que vai ser histórico? Poisé, no final da tarde gélido e belo de final de maio, descendo a rua da Consolação para cair no centro HISTÓRICO de São Paulo, tive essa sensação, e recomendo. As cerca de 5 a 10 mil (xize) pessoas que estavam ali, entre eles alguns amigos, muitos conhecidos, minha linda Jana e seus amigos que vão MUDAR A JUSTIÇA deste Brasiu, devem em algum momento daquelas algumas horas ter sentido o mesmo. Em pleno 2011, maio de 2011, ano em que revoluções quase espontâneas vem pipocando por todo mundo, do WISCONSIN ao IÊMEN, São Paulo decidiu-se que também quer brincar de ‘um mundo melhor é possível’ e deu um sutil tapa na cara de um monte de gente que tem medo de ser livre, e não quer ver ninguém livre.

Não, não estive na também histórica, pelos motivos errados, marcha do sábado anterior. Teria ido, se não tivesse chegado em casa sem dormir às 10h da manhã e ao acordar às 16h ter visto que já tinha dado merda. Mas foi a altiva coragem dos fritos com que eles enfrentaram as balas de borracha, gás de pimenta e bombas de efeito moral naquele dia ensolarado que fez com que tanta gente se unisse em uma semana para fazer uma das manifestações populares mais significativas de São Paulo nos últimos anos.

Centenas de reivindicações convergiam no denominador comum: liberdade de expressão e repúdio à violência policial. Sobre ambas há muita controvérsia, apesar da constituição democrática brasileira ser clara. A primeira instituição a cair no ridículo foi o SISTEMA JUDICIÁRIO que vem mostrando seu inerente reacionarismo, coisa que sinto que vai mudar quando a molecada nova do DIREITO que tá se infiltrando no sistema começar a dar as cartas. Gostaria muito de ver a cara de tacho dos excelentíssimos senhores promotores e desembargadores desta comarca da capital.

Mas enfim, sábado eu estava lá, e não conseguiria não ter estado lá. Todos que estavam lá sentiam que era importante estar lá. Para mim, me fez ver que apesar de todas as porradas da vida, estamos no caminho certo, e na verdade sofremos menos dos que tem medo daquilo tudo. E queremos que todos entendam isso e contribuam para a inevitável EVOLUÇÃO.

Enfim, essa foi a milonga, agora vamos tentar relembrar o que fiz nesse sábado. (O que não fiz: fumar coisas ilícitas na rua)

Já acordei meio SOBRESSALTADO, umas 9 e pouco, mandei um café da manhã rápido e embarquei no primeiro busão do dia, rumo ao Terminal Bandeira. Ia encontrar minha Jana na LIBERO BADARÓ, tentar arregimentar uns camelôs e gente diferenciada em geral para engrossar o bloco da esquerda festiva classe média/universitária, mas sem muito sucesso. Sucesso melhor tive na empreitada de voltar a ter um celular, e de comer um prosaico e delicioso sanduba de mortadela na gloriosa CASA DA MORTADELA da São João. Pegamos um Pìnheiros que descia a Augusta na Ipiranga, que enfrentou trânsito intenso na São Luís. Descemos a Paulista da Augusta até o Masp e nos deparamos com a já famosa parede de policiais em perfeita ordem e eficiência que nos ‘protegeriam’ durante o percurso. No vão livre, uma galerinha ainda pequena e um pouco tímida, mas empenhada em distribuir flores e sorrisos e good vibes, um bom sinal. Logo encontrei a família Tristão, e a Amandinha, amiga gente finíssima da Jana que tirou belas fotos.

A Jana, pobre, não conseguiu fazer o exame que tinha que fazer de manhã, e remarcou para as 3 da tarde. A marcha só sairia às 4. Levei ela no metrô, e na volta Dani Grillo, com o vizinho Murilo e seu irmão, falaram que iam ter que ver a final da champions na casa do Murilo, ali na Peixoto Gomide. Aproveitei a oportunidade de usar um banheiro decente antes de sair andando, e claro, vai o primeiro tempo do jogo e tomei umas brejas. Da janela já dava pra ver a marcha saindo e passando longa e devagar pela Paulista, em mais absoluta paz e tranquilidade. Não me aguentei e desci, virando na Augusta pra pegar a Matias Aires e a marcha decendo a Consolação em minha direção. Foi de arrepiar, principalmente na hora do MINUTO DE SILÊNCIO na frente do Cemitério e do prédio do TRIBUNAL. Achei a queridíssima Laura e pouco depois minha Jana e seus amigos que, honrando a tradição da ADVOCACIA, produziam cervejas geladas da mochila.

Cantando os gritos de ordem como ‘kassab que vergonha o busão tá mais caro que a pamonha’, ‘coxinha faz mal, pamonha é natural’, o hit ‘quem não pula quer censura’, interagindo em diversos níveis com a galera em volta e pirando com o cenário tão familiar da cidade naquele belo e frio fim de tarde, abraçado à Jana, me dei conta que aquele seria um momento que eu ia lembrar como um dos mais legais da minha vida. A culminação de uma escolha que eu e muitos ali fizeram, que eu havia feito há uns 10 anos, tomando cerveja na Cardeal com a molecada que havia tomado borrachada na passeata anti-Alca. É muito mais legal ir pra rua, conhecer pessoas, interagir, chapar o coco, desfrutar da música, da arte, da inebriação, das conversas bêbadas, e sim, de todos os problemas advindos dessa escolha, do que passar minha vida se arrastando de casa para o trabalho e vice-versa. Sim, trabalhar é necessário, é legal e importante, e pode ser até prazeroso, mas existe o terceiro pé desse tripé: pode chamar de ócio, falta do que fazer, hobbies, atividades-extra-curriculares, vagabundagem, politicagem, boemia, enfim… é a ÁGORA, o local onde o CIDADÃO se encontra e troca idéia, lembram? Não existe cidade sem a ÁGORA, e São Paulo, que teve surtos de progressismo e reacionarismo a intervalos regulares, e estava sendo assolada por um atroz reacionarismo confrontado apenas (e se confrontando) com o hedonismo hipster ‘tô nem aí’ do Baixo Augusta e com aquela galera que povoa os pretensos botecos da Vila Madalena, enquanto na infinita periferia a molecada era controlada à base de muito cassetete e coisa pior.

Acho que o pêndulo da história está naquele momento em que chegou ao auge da energia POTENCIAL e vai começar a transformá-la em CINÉTICA. Sentia no rosto da galera que estava lá, muitos dos quais convivi em diversos graus nesta DÉCADA que começou em 11 de setembro de 2001. Sobrevivemos à essa década, confiantes que a liberdade viria através do cabo do modem, descobrimos que ela ajuda, mas não é nada enquanto apenas ficarmos em nossas casas e não formos à Ágora de fato.

Foi com esses sentimentos ricocheteando no peito que cheguei à República, após o interessante momento em que a nossa marcha de fato encontrou o povo, ali na Xavier de Toledo/Praça Ramos, que foi um choque de realidade necessário. Levei a Jana ao ponto de ônibus na São João, voltei para a República e ainda tomei mais uma e fumei um GITANE SEM FILTRO com os amigos dela, sim aqueles que acho que farão algo para modernizar essa Justiça brasileira que simbolicamente proibiu uma Marcha da Liberdade que aconteceu com milhares de pessoas e nenhum problema. A polícia militar mostrou seu militarismo apenas na estrita disciplina à ordem do governador que, devemos dizer, mandou bem. Ainda encontrei alguns conhecidos, entre eles o grande Thiaguinho, malucão que conheci na sexta série, vejam vocês. Mas tava já quebradasso, e a perspectiva de uma BALADA FORTE ainda pela frente me causava tanta ansiedade quanto naquela manhã, quando acordei. Mas feliz com o sucesso da marcha, enchi o coração de alegria e encarei a caminhada de volta ao Terminal Bandeira. Banho, um BEIRUTE e uma horinha de soneca depois já estava quase recuperado. Quase.

E lá saí de novo pra pegar mais um busão, o quarto do dia, rumo à tal da Vila Madalena. Mas desci lá na Cunha Gago, ainda antes da Teodoro, e fui andando até a Mourato, subindo essa rua que conheço tão bem por inúmeros rolês nesta década, com o trânsito infernal e todos os bares caros e sem personalidade cheios de pessoas com dinheiro mas sem personalidade. Passei lá pelo lugar onde em 2004 sonhei em fazer parte da NOITE PAULISTANA no finado bar do Paulada. E entrei no Ateliê do Gervásio, que ainda está lá mais de oito anos depois da PRIMEIRA OUTUBROUNADA. Hoje estava escalado pra mandar um som logo após a apresentação de JAZZ, RIBS E ABOBRINHAS. Balada ótima, cheia de bons amigos, alguns que não via faz tempo, show tesão da banda dos menino e muita diversão na DISCOTECAGEM. O único stress foi num momento de CAOS NO BAR, mas tudo bem, faz parte.

Já eram pra mais de cinco e o horizonte começava a clarear quando nos enfiamos no carro do Zílio para irmos até a Teodoro, onde a Jana, que tinha tentado confiar no transporte público pós balada, pegou o LAPA HELP pra sua casa. De lá ainda caminhei, com os membros amortecidos pelo frio e as costas travadas, até o ponto da Faria Lima com a Rebouças, pensando nessa vida loca, mais de dez anos indo pra balada e voltando de busão. Valeu a pena? Valeu sim, e tá valendo, essa vida é muito divertida.

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~ por pnoviello em 30/05/2011.

Uma resposta to “Sábado gelado e inesquecível em São Paulo”

  1. Valeu muito, e não vou desistir do transporte público…Amanhã tem encontro com o pessoal do ‘passe livre’ e depois curtir um jazz, de graça no Sesc Pompéia, vou de ônibus…

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