Ele voltou pra Cantareira, por um bom motivo!

rainha atonita

Crédito da Foto: namorado da princesa Marininha (acho)

Nosso relato começa no dia 6 de julho de 1961. Ou melhor, no mesmo 6 de julho, mas de 1948. Nesse dia nasceu o senhor Arnaldo Dias Baptista, filho de Clarice Leite Dias Baptista, a primeira mulher no mundo a escrever um concerto para piano e orquestra (!!!) O irmão mais velho, Cláudio, era Luthier e gênio da então incipiente eletrônica na música. O mais novo, Serginho, guitarrista tocando as guitarras feitas por Cláudio. Desta época, a obsessão de Arnaldo pelos sons dos amplificadores VALVULADOS. Aos sete já estudava piano crássico, e foi salvo por John Lennon e Paul McCartney, que tiveram a ideia de montar uma banda num 6 de julho, de 1957.

Flavião nasceu de família menos erudita, mas desde tenra infância no PARI era um destes caras que BUSCAVAM CONHECIMENTO. Já contei um pouco da história de vida do mestre aqui. Mas o importante é: nos 22 anos como funcionário do glorioso Jornal da USP e nas quase duas décadas frequentando quase diariamente o CA da ECA para tomar sua cristã pós-expediente, o Flavião tocou muitas gerações de moleques inteligentes e gente fina como ele, mas que ao contrário dele tiveram a sorte de passar na Fuvest e estudar na ECA, e mais importante, percorrer o SOLO ABENÇOADO daquele lugar, das imediações da árvore rosa, do CA velho, da praça do relógio, do aprazível CA da Vet e, mais recentemente (últimos 9 anos), da prainha e do CA novo. Assim ele foi o catalizador de algo maior que ele e maior que todos nós, a criação de uma unidade de amizade que transcendeu e transcende barreiras geracionais, preferências estético-políticas e psicológicas e todos os eventuais entreveros e desentendimentos, uma turma de amigos contada às centenas, algo que nunca vi e acho que nunca verei em qualquer outro lugar.

Fazia um tempo que não escrevia aqui, e queria escrever algo sobre como as cenas culturais brasileiras sempre descambam pro terreno da ‘ação entre amigos’. Foi assim na época da bossa nova, da tropicália, da MPB setentista, do rock oitentista, e ainda hoje persiste, como a gente pode ver na ceninha ‘moderna’paulistana que orbita em torno do Studio SP. E na nossa humilde mas significativa ‘cena ecano-mundrunga’ ou como vcs preferirem chamá-la. Vi isso muito claramente lendo o ‘Noites Tropicais’, livro de memórias do Nelson Motta, o FORREST GUMP DA MPB, heheh… apesar de muitos criticarem essa tendência, com motivos justificados, não vejo muito como fugir. A cena dos anos 60, dos beatniks, a geração perdida da Paris nos anos 20, etc, tb eram, mais que uma cena cultural, um grupo de amigos talentosos se ajudando e enchendo a lata juntos. Bem, chega dessa digressão.

Sem a genialidade de Arnaldo Baptista, o tropicalismo nunca teria existido. Ele (e também Tom Zé) foram os mais radicais, os que não se conformaram, não viraram medalhões e, Arnaldo principalmente, foram abandonados pelos amigos agora medalhões, mergulharam de cabeça na loucura, na demência, na expansão sem limites da consciência e da criação musical, e Arnaldo viu a morte de perto. Sim, ele se jogou do quarto andar do hospital em 1982, quase morreu, perdeu massa encefálica, disseram que nunca mais ia tocar e compor. Foi salvo pelo amor de uma mulher, Lucinha, que também tive o prazer de conhecer no sábado. E neste sábado, 9 de julho de 2011, tudo fez sentido.

Flavião e Arnaldo, dois faróis, dois mestres, cada um a sua maneira, se encontraram, por obra de cerca de uma centena de amigos, que se esforçaram, meteram a mão no bolso, dispararam MILHARES de emails, carregaram peso, percorreram dezenas de vezes a sinuosa estrada Santa Inês, ficaram sem dormir, brigaram (claro), mas mantendo essa bela união que parece indestrutível, proporcionaram a Flavião, Arnaldo e a todos ali um dia inesquecível. Neste 2011 que não está devendo nada a 1968, já tinha falado que me senti parte de algo maior, belo e importante, na marcha da liberdade, e senti o mesmo, de forma muito mais intensa e concentrada, neste sábado. Quando Arnaldo começou a tocar e cantar a BALADA DO LOUCO, eu e quase todo mundo ali na beira daquele lago, com o sol caindo entre as árvores e olhado hipnotizados para um piano emoldurado por uma casinha de sapé, nos debulhamos em lágrimas… de alegria. Lágrimas que eu sequei no ombro da minha menina Jana, com o coração tomado de alegria e gratidão por estar vivendo aquilo ao lado dos meus amigos e ao lado dela, e naquele momento senti o amor genuíno, transcedental, transbordante, que nunca havia sentido na vida, foi foda.

Esse foi o relato emocionado, arrepiado, mas devo dizer que não faltou nada. Tudo o que piramos e viajamos, mas que também planejamos e arregaçamos a manga pra fazer rolar, rolou. Rolou o sistema de som, com piano microfonado. Rolou o camarim lindo na casinha de sapé, que Fetu, Babi e minha Jana arrumaram com extremo carinho e cuidado. Rolou chopp Bamberg de três tipos, rolou churrasco, comidas mil, rango vegetariano, doces, bolo psicodélico, cupcakes do Flavião, rolou fogueira, lareira, fogão a lenha. Rolou Dudu e seu violão por horas a fio, e depois uma seleção mundrunga de sonzitos com destaque para o Gil e Jorge no fim da madrugada, com os resistentes em volta da fogueira em descontrolada risadeira tomando vinho da adega Lorenzetti. Rolou a rebarba no dia seguinte. E, sim, rolou a surpresa. Até chegar lá, levado por sua princesa Marininha, Flavião não sabia de nada. Foi devidamente coroado e desceu com seu séquito até o lago, e só soube que Arnaldo estava lá quando a porta da casinha de sapé se abriu. Um encontro pra ficar na história, capturado por dezenas de câmeras. E rolou o senhor Arnaldo Baptista, 62 anos de vida e muitos anoz-luz de genialidade, sentado ao piano, tocando com emoção e quase incredulidade um punhado de obras primas musicais, de suas ‘Lóki’, ‘Será que vou virar bolor’, a já citada ‘Balada do Louco’, ‘I Got You Babe’, um pout-pourri de Ray Charles ‘Georgia on my mind’e ‘I Can’t stop loving you’, e até um trechinho de JOHANN SEBASTIAN BACH, talvez o que começou essa história toda uns 400 anos atrás. Arnaldo voltou para a Cantareira, a profecia se realizou, o ciclo se fechou. Tudo valeu a pena. Para ele, para o Flavião, e para nós todos, que nesse cínico e frio início do século 21 ainda acreditamos na amizade, no amor, na consciência, na COMUNHÃO CÓSMICA, enfim, na vida. Obrigado Arnaldo, obrigado Flavião, obrigado irmãos Lorenzetti, família Tristão, família Grilli, Sapito Milonga, Giba y Dileo, princesa Marininha, Dani Ponei, Fetu e Barbara, Lau Fosti, Xan, e todos os cerca de uma centena de presentes e os que não puderam comparecer. Rico é o homem que tem bons amigos

Anúncios

~ por pnoviello em 12/07/2011.

19 Respostas to “Ele voltou pra Cantareira, por um bom motivo!”

  1. Muito bem, muito bom: pura emoção lendo teu relato. Parabéns pra ti também, campeão!

    Abraço forte!

  2. Que lindo Paulada!

  3. puta que pariu, Paulada! não imaginei que fosse chorar mais uma vez, de alegria, de emoção. Obrigada, meu amigo, pelas grande ajuda sempre nas produções e pelas articuladas e emocionantes palavras. Um beijo, Dani Apone (a ponei, hehe)

  4. lindo, paulão. faltou só pontuar o lamentável desempenho de f. e b.m., com sua bisonha mesa de três zagueiros.

    vina, que perde a noção de timing e educação, mas nunca a píada

  5. Adorei, Paulão. Sábias palavras. Emocionei, como sempre. Mas agora, chega de chorar, né… tem que dar um tempo! 🙂
    Beijo!

  6. Pô, Paulada, faz isso não. Como diria o cala a boca galvão: “Haja coração amigos”. Não é fácil, o tom de emoção tem que ser dosado!!!

  7. Parabéns pelo relato, Paulada. E parabéns é pouco para os organizadores e participantes desse momento que ficará marcado para sempre. Minha relação com a mundrungagem, embora não tão próxima como a maioria de vocês, foi especial o suficiente para me marcar para sempre: amigos valorosos, foram incrivelmente receptivos quando fui bixo em 1998, na disputa do Tavares Lopez; partidas diárias de pebolas, regadas a muita risada e camaradagem, foram um dos pontos altos de minha época de ECA; fora minha presença esporádica acompanhando a ECA Verde. Ao ser convidado pelo Mau, me senti lisonjeado e muito, muito privilegiado. Esses ecanos foram e são responsáveis diretos pela forma de como tenho tentado ver o mundo. Obrigado e um beijo a todos, em especial à nossa monarca Flavião, um ser verdadeiramente iluminado. Fico feliz em fazer parte da família!

  8. Endosso totalmente os comentários acima, não é preciso dizer mais nada. Parabéns a todos que fizeram a balada tão especial!

  9. Parabéns pelo texto, companheiro.

    Parabéns pra todos pela incrível balada!

  10. Coisa linda Paulada! Sim, estamos lá! Emoção pura e a tentativa de descrevê-la!

  11. Paulada, grato por traduzir tão bem a emoção que foi esse momento. Realmente é um prazer conviver com essa querida mundrungagem!

  12. heheeheheh
    peace & Love

  13. Parabéns a todos pela balada incrível, obrigada meu lindo por fazer parte da minha vida e me proporcionar um momento tão mágico!

  14. Belíssimo texto Paulada. E aqui entenda belo texto como aquele que é escrito baseado na Verdade e no Amor.

  15. PQP…

  16. PQP(2), arrebentou Paulinho!

  17. PQP (3) CLAP CLAP CLAP

  18. Com maestria. Aí sim!

  19. lindo, paulao

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: