São Paulo, uma cidade nazista

Foi um fim de semana triste em São Paulo. Primeiro pelo tempo horrível, chuva inclemente, cinza dominante. Sábado bom pra dormir o dia inteiro, uma pena, pois era 15 de outubro, dia global de ocupação das ruas na luta contra a delinquência ultracapitalista. Em SP, marcada pro Largo São Bento, a ocupada não atraiu mais do que 70 heróis. Eu, na minha preguiça paulistana, não saí da cama antes das 2 da tarde, e não saí de casa antes de escurecer. Mas era dia de Festa Fela, evento que me motivou a abandonar temporariamente minha aposentadoria de baladas e chacoalhar o esqueleto ao som de um bom e velho Afrobeat homenageando o gênio nigeriano Fela Kuti. Isso significava até encarar o temerário ESTÚDIO EMME, onde eu nunca tinha posto os pés e sabia que a latinha de Devassa custava SETE REAIS.

Ou seja, se fazia necessário um esquenta, e o destino me levaria ao velho e bom BAR E LANCHES TUPINAMBÁ, eternamente conhecido como Bar do Seu Zé, na aprazível esquina da Cardeal com a Simão Álvares, pertinho do tal Emme. Passei na casa da namorada, que deu carona para as quatro insperáveis amigas Le, Li, Fe e Ma, que se apertarem no banco de trás. No buteco, tratamento vip do grande Giovanni, que nos colocou numa mesa embaixo do toldo lateral, do lado da banca, nos protegendo da chuva que não parava e permitindo aos fumantes fumarem. E dá-lhe cerveja e as impecáveis empanadas chilenas descendo a rodo. Claro que a fartura nos gerou uma conta de 270 pilas pra pagar na hora de ir embora e se encaminhar para a Pedroso. Eram 0h30, ou seja, 1h30 no recém-chegado horário de verão. Sabe-se que por imposição municipal o buteco tinha que fechar a 1h, imposição que o Seu Zé tem seguido a risca. Mas nesse horário, nojentamente e covardemente se aproveitando da pegadinha do horário de verão, a administração do Sr. Gilberto Kassab e seus sub-prefeitos oriundos da Polícia Militar, com a ex-inofensiva e agora igualmente selvagem Guarda Civil Metropolitana, baixou no bar e mandou lacrar. Inacreditável truculência e total indisposição para diálogo e argumento. A única coisa que o fiscal falou é: “ele (o dono) sabe quais são os trâmites”. Tática covarde e vil. Em suma, uma ação nazista em sua esssência. Como diria Mano Brown, Adolf Hitler sorri no inferno. Depois do ocorrido no Seu Zé, onde tive que ser contido pela namorada para não xingar os agente da lei do Kassab e me arriscar a ser preso por desacato, até fui na Festa Fela, e até dancei, e até me diverti. Mas a noite já estava arruinada. Foi um dia triste, apesar das mais de mil pessoas que foram lá chacoalhar com o espirito do senhor Fela Kuti, o libertário negro sensual negativo de Kassab.

Não é por acaso que é nesta São Paulo que a extrema-direita skinhead neonazi bota as manguinhas de fora espancando gays e qualquer um cuja mera existência ou ofenda. É a mesma coisa que os vizinhos do Seu Zé fazendo abaixo-assinado para que não se instale no pedaço ex-podreira e agora valorizado da cardel um albergue para sem-teto. É a mesma coisa das hordas de descendentes de pé-rapados europeus que vieram pra cá serem quase escravos que se horrorizam com quem veio depois e não tem a pele tão branca e o sotaque tão familiar, e se encastelam em seus condomínios neo-jecas com ~espaço gourmet~ e seus SUVs blindados. Pessoas que não conseguem se divertir e serem felizes, então desejam a mesma amargura e tristeza para os outros. Que cidade é esta que estas pessoas estão construindo? E que cidade é essa que nós, que gostamos da rua, das bebedeiras, dos shows, da eferverscência cultural, da loucura caótica da metrópole, tacitamente permitindo que continue. A Vila Madalena já era, o ~Baixo Augusta~ é o próximo. A vida noturna, meio sem querer, só ajuda a especulação imobiliária e a gentrificação que vão acabar por expulsar a própria vida noturna até o ponto em que ela não mais exista em São Paulo. Aí então a cidade estará morta, e seremos cúmplices, assim como os blogueiros/twitteiros descoladex que fizeram campanha pelo Kassab. O higienismo nazista de síndico de condomínio simbolizado e liderado pelo senhor Kassab vai matar São Paulo. Ano que vem tem eleições, e elas serão a mais importantes da história recente de nossa cidade. Se deixarmos mais um filhote do Kassab no comando, não vai ter mais pra onde correr.

A Berlim que nos anos 20 era o lugar das vanguardas, da loucura cultural e artística, de um movimento gay, comuna, dadaísta louco underground, precisou de um hitler, toneladas de bombas, e um muro para voltar a ser a metrópole vibrante louca cheia de coisa legal pra fazer que é hoje. Será que São Paulo vai precisar de seu Hitler e seu muro para voltar a ser uma cidade legal? Espero que não, e tentarei fazer minha parte para que isso não aconteça. Espero que você também faça sua parte.

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~ por pnoviello em 17/10/2011.

5 Respostas to “São Paulo, uma cidade nazista”

  1. Esse detalhe do iminente fim do Baixo Augusta e de ue é exatamente a vida noturna que abrevia a própria… vida noturna é o mais importante.

    Aqui na Praça roosevelt – logo, entorno do Baixo Augusta – bares e teatros estão ameaçados de fechar exatamente pela revitalização que tanto lutaram na Praça.

    Kassab é só a ponta de um imenso iceberg, onde a base é uma elite racista e preconceituosa que, claro, elege aqueles que mais representam seus interesses, o de matar todo e qualquer tipo de mbiente em que possa haver cultura popular, troca, mistura de classes e cores.

    http://www.tsavkko.com.br/2011/10/praca-roosevelt-polo-cultural-ate.html

  2. Eu continuo defendendo que precisamos fazer QUALQUER COISA para evitar que esta cidade vire um porre.

  3. muito bem dito, muito bem escrito!
    são paulo: o berço dos reacionários constipados.

  4. Volta pra tua terrinha miserável, que não precisamos de vc aqui, racista.

    Estou denunciando este blog pro Crime Racial, por ter atacado São Paulo, e consequentemente o Povo Paulista, que possui História, não vota por Bolsa-vagabundo, e tem que ser respeitado por vermes cretinos como vc.

    • hahahahaah meu amigo, eu nasci e vivi minha vida inteira em São Paulo, meus pais nasceram e viveram a vida toda deles em São Paulo, dessa terra eu entendo muito bem, quem está sendo racista é você, e quem suja a imagem do povo paulista é gente como você e os governos eleitos por gente como você. Aquele abraço.

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